Beata Ana Rosa Gattorno, religiosa e fundadora das Filhas de Santa’Ana

 

    Religiosa, fundadora do Instituto das Filhas de Santa Ana, nasceu em Génova (Itália), no dia 14 de Outubro de 1831. Em 1852, com a idade de 21 anos, contraiu matrimônio com Jerónimo Custo e transferiu-se para Marselha (França). Uma imprevista crise financeira perturbou a felicidade da nova família, obrigada a retornar a Génova. A sua primeira filha, Carlota, afetada de repentina enfermidade, ficou surda-muda para sempre; e apesar da alegria de outros dois filhos, ela foi novamente abalada com o falecimento do esposo, após seis anos de matrimônio, e com a morte do seu último filho.

   Estes acontecimentos marcaram a sua vida e levaram-na a uma mudança radical, a que ela chamara "a sua conversão", isto é, à entrega total ao Senhor.

   Orientada pelo seu confessor, emitiu de forma privada os votos perpétuos de castidade e obediência, precisamente na festa da Imaculada: 8 de Dezembro de 1858, e depois, como terciária franciscana, professou também o voto de pobreza. Viveu intimamente unida a Cristo, recebendo a Comunhão todos os dias, privilégio que naquele tempo era pouco comum. Em 1862 recebeu o dom dos estigmas ocultos, percebidos mais intensamente nas sextas-feiras.
 
   Num clima de intensa oração, diante do Crucifixo, recebeu a inspiração de fundar uma Congregação religiosa: "Filhas de Santa Ana, Mãe de Maria Imaculada". Depois de a ter escutado durante longo tempo, o Papa Pio IX confirmou-a na sua missão de Fundadora. Vestiu o hábito religioso no dia 26 de Julho de 1867 e a 8 de Abril de 1870 emitiu a profissão, com outras doze religiosas.
 
   Com esta fundação, realizou muitas obras de atendimento aos pobres e doentes, às pessoas sozinhas, anciãs e abandonadas; cuidou da assistência às crianças e às jovens, proporcionando-lhes uma instrução religiosa e adequada, a fim de as inserir no mundo do trabalho. Assim, foram abertas muitas escolas para a juventude pobre e a promoção humano-evangélica, segundo as necessidades mais urgentes da época.
 
   Sofreu provas, humilhações, dificuldades e tribulações de todo o género, mas sempre confiou em Deus e, cada vez mais, atraía outras jovens para o seu apostolado. Assim, a Congregação difundiu-se rapidamente na Itália, Bolívia, Brasil, Chile, Peru, Eritreia, França e Espanha. Ana Rosa faleceu no dia 6 de Maio de 1900.

Origens

    O século XIX assinala uma época de marcantes contrastes. Mas a despeito de lutas acerbas da impiedade contra a religião, o sobrenatural conseguiu sobrepujar o ateísmo.

  Verdadeiros prodígios de caridade, concretizados no florescimento das obras sociais sobrenaturalizando a ação e o aparecimento em número avultado, de santos autênticos, fizeram frente à navegação do Divino e Deus provou de modo insofismável, nesta página gloriosa da Igreja, que ele é soberano Senhor do Universo.

    Foi neste período de violência e fortes incompreensões, que, atendendo ao imperativo da graça, Rosa Gattorno fundou o Instituto das Filhas de Sant’Ana, ao qual costumava chamar “L’Opera di Dio”.

Revendo as Fontes

    Em 1827, Francisco Gattorno, procedente de ilustre família genovesa, uniu-se com laços matrimoniais a uma sua conterrânea, viúva, jovem ainda, Adelaide Campanella. Ele pertencente às primeiras famílias da sociedade era comerciante honesto e laborioso. Ela, de família não menos ilustre, era piedosíssima e muito caridosa.

    Abençoado matrimônio na Paróquia de Nossa Senhora da Consolação em Gênova, aos 20 anos de junho de 1827, aí fixaram residência.

    Favorecido pelos bens da fortuna, este ótimo lar foi enriquecido com seis filhos: Emanuel, Rosa, Justina, Frederico, Luisa e Francisco.

    Na casa Dealbertis, que ainda hoje se vê, à Praça São Bernardo, distinta em seu estilo sombrio, nasceu a Segunda filha do casal, do dia 14 de outubro de 1831 e no mesmo dia foi batizada na Paróquia de São Donato, sendo-lhe impostos nomes de Rosa Maria Benedetta.

    Impedida por motivos de saúde, de dispensar os necessários cuidados à recém –nascida, a Sra. Adelaide, segundo o costume daquele tempo, confiou sua pequena Rosa a uma nutrícia de Ovada, lugar de clima recomendável.

    Aquela criança inocente sobre a qual Deus tinha altos desígnios, deixava transparecer em seu semblante, de um encanto celestial, o tesouro preciosismo da graça que a Providência Divina implantara em seu coração.

    A história desta grande confortadora de corações, desta heróica amiga dos enfermos, bem correspondeu as primordiais impressões. É que Deus muitas vezes se compraz em assinalar o destino dos santos desde o momento em que o introduz no mundo.

    Desnecessária que foi a assistência da ama, a encantadora criança voltou ao lar paterno. Objeto de ternura e dedicação dos que lhe eram caros e que souberam plasmar-lhe o coração com requintes de bondade nunca degenerados em fraqueza, ia crescendo essa menina privilegiada num ambiente sadio e mui propício ao robustecimento de suas virtudes inatas. Nesta família exemplarmente cristã, a educação dos filhos era confiada à vigilância da piedosa mãe que, com palavras a exemplos infiltrava naqueles tenros corações a piedade religiosa antes de qualquer outro aprendizado útil.

    Nada de particularmente notável encontramos na primeira infância de Rosa.

Olhando para o alto

   A casa dos Gattorno, entretanto, devido à agitação política daquele tempo, foi objeto de aventuras dolorosas que influíram sinistramente sobre o ânimo dos meninos.

   Faz mister notar que a Senhora Adelaide Campanella, não obstante ser tão boa e piedosa, tinha um irmão, Frederico, animado de sentimentos completamente opostos aos seus. Este, quando estudante de jurisprudência na Universidade de Gênova, estreitou a amizade com José Mazzini, e, de tal forma se apaixonou por suas idéias políticas, que, com elas absorveu também os erros da religião.
Frederico Campanella, com dois outros jovens instituiu em Gênova um comitê da “Jovem Itália” fundada por Mazzini, em Marselha. Trabalharam os três com afinco para difundir aquela instituição e prepararam, secretamente, uma insurreição que deveria explodir em Gênova em princípios de 1833. Entretanto, tendo chegado às autoridades do governo a notícia da conspiração, muitos dos implicados foram rigorosamente justiçados na Praça de Caça e, um dos amigos mais íntimos de Frederico, Jacopo Ruffuni, desesperado, suicidou-se no cárcere da torre do palácio ducal. Não se sabe como Frederico Campanella ludibriou as investigações da polícia e refugiou-se em casa dos Gattorno. Disfarçado em marinheiro, com a face e as mãos enegrecidas de alcatrão, conseguiu embarcar em uma nave que estava prestes a zarpar para Marselha.

   Quando se desenrolavam esses acontecimentos, Rosa contava apenas dois anos e seu irmão Frederico, seis, o que não lhes permitiam compreenderem o agravante da situação. Estes fatos, porém, tiveram grande influência na formação moral dos meninos que, ao freqüentarem a escola primária, a encontraram infectada de turbulências sectárias. As notícias do tio que, durante quinze anos viveu foragido sem poder pôr os pés na Itália, ascenderam naqueles corações infantis admiração entusiasta por essas idéias novas. Frederico a elas se entregou perdidamente, logo que atingiu a idade juvenil, abraçando por causa do tio, uma vida sectária e irreligiosa, sobre pretexto de reivindicações políticas.

Uma previsão

    Nessa época, um episódio ressalta na vida de Rosa.

    Mons. João Maria Ferreti, mas tarde cardeal e, em 1846, Pontífice Romano, passando por Gênova, fez uma visita à casa dos Gattorno. Conversando com a senhora Adelaide em presença de Rosa, de tenra idade ainda, sentiu-se misteriosamente impressionado e disse: “cuide com esmero dessa criança que, mais tarde, deverá ir ter comigo várias vezes”.

    Trinta anos após esta afirmação profética, Rosa teve que ir a Roma para conseguir de Pio IX a memorável audiência que decidiu a fundação dos Institutos das filhas de Sant’Ana e deu início entre o Santo Pontífice e a cerva de Deus, uma estreita relação de trabalhos em prol da igreja.

Primeiros contatos com o infinito

    Aos onze anos, cuidadosamente preparada pela piedosa mãe, Rosa foi admitida à primeira comunhão e, logo após, no dia 19 de abril de 1843, recebeu o sacramento da crisma. Estes acontecimentos imprimiram particular maturidade no caráter da menina. A inteligência precoce da criança fê-la participante de todos os acontecimentos da casa pela admirável influência que exercia sobre os irmãos. Com indizível generosidade privava-se muitas vezes, do supérfluo para satisfazer os inocentes caprichos dos irmãos e isto os fazia muito amigos de Rosa e dóceis a seus conselhos. Sua querida mãe, quando atacava de grave enfermidade, encontrou nela o maior conforto. Delicada em prevenir e ocultar tudo o que pudesse afligir sua genitora de caráter extremamente sensível, Rosa tornou-se sua confidente em cujo coração a boa senhora derramava todas as suas dores e alegrias. Nessas confidências, a boa filha hauriu preciosas diretivas para a vida, o que mais tarde muito lhe serviu e lhe proporcionou frutos consoladores.

    Sua incansável dedicação com os de casa deixava antever a rara habilidade caridoso heroísmo com que, futuramente, se voltaria ao tratamento dos enfermos. Acostumou-se desde cedo, à sábia distribuição de tempo de tal forma que pode sempre se dedicar à oração, praticar obras de caridade e ensinar o catecismo sem prejuízo de seus deveres sociais.

    Este ideal de dedicação aos humildes sulcou, nela, desde então, o traço característico de sua personalidade. Seu talento e fina educação, longe de lhe servirem de estímulo à vaidade, desenvolveram em seu espírito um critério todo cristão sobre o valor da vida, que ela começou a sentir tanto mais preciosa, quanto melhor despendida em benefício do próximo.

Reafirmando seus valores

    Mas o caráter de Rosa se afirmou verdadeiramente cristão, distinguindo-se mesmo por uma fé robusta e filial amor à Igreja, ao contacto com os revolucionários, quando, de volta do exílio,

    Frederico Campanella, com suas idéias maçônicas e republicanas, atraiu a si os irmãos de Rosa.

    Sua amizade com Mazinni e Garibaldi deu a esta, oportunidades freqüentes de falar-lhes, de tomar parte em suas conversações de caráter político-religioso. Apesar de muito jovem enfrentou com admirável coragem estes homens eruditos, sem jamais se curvar a suas idéias ímpias.

    Sua incomparável intrepidez e segurança, num debate sereno e delicado, imprimia-lhe um cunho de superioridade e conquistava a estima e admiração de seus adversários.

    Em tais circunstâncias, já se sentia bem definida a personalidade da Serva de Deus. Já se admirava nela o perfeito controle, aquele justo equilíbrio que admiramos nos santos, cujo segredo se encontra na infidelidade à graça, que se reflete numa vida toda de renúncia e voltada ao transcendental.

    A casa Gattorno era muito freqüentada pôr pessoas distintas que vinham, ou para tratar de negócios com o Sr. Francesco, titular de uma florescente casa de comércio de cereais, com filiais no exterior, ou para conversações políticas especialmente nos períodos em que se encontrava em casa, Frederico Campanela, irmão da Sr. Adelaide, amigo íntimo de Mazzini e seu fervoroso sequaz.

    Com o passar do tempo, exerceram novos atrativos, especialmente sobre os hóspedes mais jovens, Rosa e a irmã Justina, dois anos mais nova, graciosas mocinhas, de finos modos e de juízo maduro.

    No final da sua adolescência Rosa começa a pensar seriamente no seu futuro: não faltam os pedidos de matrimônio, e ela pede conselho ao confessor o qual, embora reconhecendo nela uma acentuada inclinação à piedade, considera-a mais apta a vida conjugal e a encoraja neste sentido.

    Entre os pretendentes, distingue-se o Advogado Tito Orsini, irmão do patriota maziniano Ângelo Antônio; sendo ele já profissional afirmado, do fórum genovês, e em vista do brilhante futuro que poderia assegurar a Rosa, o Sr. Gattorno seria propenso a acolher o pedido.

    É dissuadido, porém, pôr causa das idéias políticas e religiosas, professadas abertamente pôr Orsini e talvez também o seu sistema de vida; e concorda com boa vontade a inclinação de Rosa, que não se mostrou insensível às atenções de Girolano Custo (23 anos), seu primo distante estimado pôr toda família Gattorno, pêlos seus dotes naturais e morais, e suas boas condições econômicas.

    Preparada para o casamento, como para uma seqüência intérmina de dificuldades, não foi ludibriada em suas previsões.

Reticências de felicidade

    Em Marselha, onde se encontrava em viagem de núpcias, deu-se à falência comercial do marido e este incidente, que muito sofrimento ocasionou aos jovens esposos, trouxe ainda o afastamento dos sogros de Rosa. Entretanto, o nascimento da primeira filhinha que na pia batismal recebeu o nome de Carlota Francisca Maria, lhes trouxe dupla alegria por ter sido o laço de aproximação dos avós paternos. Muito rápido, porém, foi este vislumbre de felicidade porque, acometida de misteriosa enfermidade, à qual sobreviveu, a pequenina ficou para sempre fadada à triste condição de surda-muda.

    Rosa teve mais dois filhos: Alexandre e Francisco.

    O Sr. Custo conseguindo, em parte, refazer os prejuízos que tivera, proporcionava à família todo o conforto. No entanto, o seu temperamento colérico e violento foi à causa de grandes sofrimentos à dedicada esposa que todas às noites se recolhia em fervorosa oração para pedir ao bom Deus que lhe desse força para suportar tão rude provação.

    Após o nascimento do terceiro filho, o Sr. Custo, vítima de uma tuberculose pulmonar, ficou preso ao leito, assistido sempre pela esposa com indizível caridade. Plenamente conformado e confortado com os sacramentos, graças à dedicação da esposa, Jerônimo Custo faleceu aos 9 de março de 1858.

    Rosa não o tinha abandonado um instante, especialmente após o nascimento de Francesco. Nem mesmo se despia, para estar sempre de prontidão para qualquer necessidade dele. Escondendo debaixo do sorriso a sua angústia que tranqüilizava o espírito turbado, acalmava seus imprevisíveis momentos de impaciência. Com sua delicada tática, o induzia a rezar com ela, a resignar-se, sobretudo a colocar sob a proteção da Virgem, os pequenos, que tão depressa, -- pensava Rosa angustiada – Ficariam órfãos. Girolano morreu resignado e Rosa agora estava sozinha: com a pequena surda-muda, com os outros dois meninos, tão tenros ainda, sozinha. Sozinha também diante do vexame pôr causas não bem esclarecidas, explode uma questão pôr motivos de interesse entre os Custo e os Gattorno; e a ela cabe sofrer a nova experiência de um seqüestro judiciário, pelo qual assiste que se levem os móveis de sua casa. Intervém o Sr. Gattorno que logo acolhe na sua casa a filha e os netinhos.

    E aí volta para casa dos pais viúva, pobre, humilhada, abatida, depois de ter um dia, saído como esposa feliz, apenas seis anos antes. Não tem ainda 27 anos, e lhe parece Ter já experimentado quanto se pode sofrer na vida. E num dia em que a angústia é mais forte, com um impulso irresistível toma consigo os três filhinhos leva-os à Igreja da Santa Maria delle Vigne, e com um pranto amargo os oferece à Virgem das Dores. Parece-lhe então ouvir uma voz interior que a tranqüiliza: Maria protegerá os três órfãos. Rosa volta mais serena para casa.

    No entanto o cálice não está cheio ainda: Parece que o senhor queria torná-la perita em todas as dores que possam ferir um ser humano para que pôr sua vez possa compreender e compartilhar os sofrimentos de tantos irmãos: e poucos meses depois da morte de Girolano morre Francesco, o último nascido. Para Rosa isto parece o golpe definitivo que põe fim à sua capacidade de resistência. Cai num estado de prostração que lhe tira a vontade e a força de viver; pensou que enlouqueceria. Somente depois de muitos meses, com a ajuda do confessor, consegue com enorme esforço, recobrar-se, procurando na fé, a força necessária para ser o apoio e amparo dos seus pequenos órfãos.

Viúva

    A dor, aliviada pela fé, amadureceu e tornou mais aguda a sensibilidade natural de Rosa. Perita de todas as dores, partilha a dos outros como se fossem suas.

    Já antes do matrimônio tinha-se dedicado, nos limites do possível, pela sua condição de filha de família, às obras de caridade. Agora está sentindo como que um íntimo chamado que a impulsiona a consolar os outros e este é o modo mais eficaz para apaziguar-se e alimentar a sua vida interior, reforçada pela comunhão cotidiana que, mesmo contra os usos do tempo, o confessor a aconselhou como única fonte de força.

    Na casa do seu pai ocupa um pequeno apartamento com entrada independente e aproveita, não só de dia, mas quase sempre de noite, confiando as crianças à fidelíssima criada, para ir visitar os pobres e os doentes, especialmente os moribundos.

    Depois do filhos, são os pobres e os infelizes que fazem parte da sua vida. Para ajudá-los mesmo materialmente, agora que também ela é tão pobre, priva-se das suas coisas mais necessárias, e até do alimento. De resto, com licença do confessor, comprometeu-se a um ano de jejum rigoroso, a pão e água.

    Ela experimentou a perda do esposo e de um filho (13 meses após morreu Francisco com 7 meses); conhece os apertos e as humilhações da pobreza: esta intensidade de experiência dará mais tarde a sua figura de Fundadora e de Religiosa a dupla dimensão de humanidade de espiritualidade que lhe dará a possibilidade de elevar a dor humana, tanto a sua como a dos outros, às alturas da identificação com as dores de cristo.

A fragrância de Cristo

    Rosa, porém, se educara na escola do Crucificado. As últimas desventuras sulcaram na alma da Serva de Deus os mistérios da cruz, e lhe sugeriram os desígnios da sua santificação.

    Quis se consagrar a Deus com voto perpétuo de castidade, mas só obteve permissão para fazê-lo por um ano. Cingiu ao peito uma cruz pontiaguda de uns sete centímetros, conservando-a sempre tão apertada a ponto de penetrar na carne.

    Dedicando-se com todo o fervor às obras de caridade para co o próximo, foi sentindo aos poucos lhe arrefecer no coração todo o afeto terreno e nele se avivar a chama do divino amor. Entrou na Ordem Terceira de São Francisco e era tal o atrativo que sentia pelas penitências aflitivas que, se não fosse a obediência, teria reduzido seu corpo a uma verdadeira chaga.

    Certa vez, enquanto estava em adoração diante de Jesus Sacramentado, sentiu-se absorta numa viva percepção do sangue de Cristo, experimentando ao mesmo tempo sentimentos inefável de íntima união com Deus. Este fato repetiu-se por várias vezes, até que ela compreendeu bem que deveria purpurejar-se com seu sangue pelas asperezas corporais , para se unir mais intimamente ao seu Deus Crucificado.

    Ao término desse ano memorável, na novena da Imaculada, foi-lhe concedida permissão de fazer o voto perpétuo de castidade e obediência.

Outros caminhos

    Terríveis eram as tribulações na vida da família. Angústias sem fim lhe vinham por parte dos sogros que, absolutamente, não concordavam com a austeridade do padrão de vida a que ela se entregava. Seu irmão Frederico, sectário acérrimo da maçonaria e aferrado sequaz de Garibaldi, não a fazia sofrer menos. Necessitada de força para vencer estas tribulações e num veemente anseio de alimentar a intensa chama do amor de Deus pediu e obteve permissão para aumentar suas penitências.

    Desde o nascimento de seu filho Alexandre, contando 25 anos de idade, ela se impôs, por voto a um jejum perpétuo, voto este que ela cumpriu até a morte. Todas as noites se disciplinava pelo espaço de dois Miserere e de Profundis. Punha pedrinhas nos sapatos Mara magoar os pés e perseverou nesta penitência durante 8 anos de sua viuvez. Costumava passar urtiga na pele para mortificar o tato. Abstinha-se do uso de aquecedor durante o inverno, chegando a ponto de ser acometida de vertigens pelo grande frio que sentia.

    Com propósito deliberado o fazia o que lhe causava repugnância, procurando mesmo sentir toda revolta da natureza. Após reiterados pedidos, alcançou do confessor permissão para usar um colete de pele todo eriçado de pontas de ferro. Trazia também os braços e as pernas cingidos por correntes pontiaguda. Conseguiu até encontrar meios para mortificar a cabeça e os pés. O suplício mais doloroso, porém, era o que lhe ocasionava uma corrente grossa, com as extremidades em ponta, que ela usou até a véspera de sua morte.

    Terríveis combates teve que sustentar contra as sugestões diabólicas. Estas foram as mais duras provas por que passou.

    Tantas austeridades e sofrimentos morais abalaram seriamente a saúde de Rosa. Esta alma privilegiada ascendeu tão alto na purificação de si mesma e na união com Cristo,que os arroubos de suas aspirações eram do estilo dos grandes santos com ressaibos da loucura da cruz.

    Na festa a Imaculada do ano de 1862, finalmente, foi-lhe concedido fazer voto de pobreza.

    As muitas penitências e orações assíduas não a impediam de pensar nos outros; tanto que grande admiração despertava em Gênova a operosidade daquela senhora que estava sempre presente nas instituições de benemerência e onde quer que a caridade a reclamasse.

    Inicialmente dedicou-se à educação dos filhos os quais amava com excesso de ternura. A figura da viúva Custo dava a todos os de sua convivência a impressão de uma pessoa elevada acima do nível mesquinho e material da vida, evidenciando um caráter humilde e tenaz, no qual dominava o amor e o ideal de um bem superior. Nela admiravam ainda aquela resignação invulgar e serenidade Angélica com que fazia frente às mais dolorosas provações. Tão peregrinas virtudes atraíram, naturalmente, a Serva de Deus muitas senhoras da sociedade genovesa que dela se consideravam amigas íntimas e afetuosas disciplinas, sentindo-se felizes por serem suas colaboradoras nas obras mais humildes de caridade.

    Pelos meados do século XIX floresciam em Gênova muitas associações religiosas fundadas, justamente, para avivar a fé e remediar as desordens decorrentes das revoluções político-religiosas.
Rosa Gattorno compreendeu facilmente esta situação tanto mais que o anticlericalismo se fazia sentir entre os de sua convivência. Dando grande apreço aos pios sodalísticos fundados por sacerdotes esclarecidos, nele tomou parte com grande alegria, e consigo, levou também muitas amigas, almas fortes e generosas que a ela se afeiçoaram como se fossem irmãs.

Enlevos pela Eucaristia

    Entre as pias uniões estabelecidas para o culto, as eucarísticas tinham a preferência de Rosa, assídua adoradora que era do SS. Sacramento.

    Certa noite, passando diante de uma igreja que já se achava fechada, ardendo em desejos de se entreter com Jesus Sacramentado, ficou um instante parada sem saber o que fizesse quando, misteriosamente, a porta se abriu e ela entrou na Igreja, fechando-a atrás de si. Prostrada diante do Senhor, Rosa abismou-se por tal forma de oração, a ponto de não se aperceber do adiantado da hora. Na manhã seguinte, entrando o sacristão para abrir a Igreja ficou muito perturbado ao encontrar àquela senhora ali. A Serva de Deusa tranqüilizou-o com estas palavras: “Não se alarme, sou a Gattorno. Desejosa de fazer um pouco de oração entrei aqui ontem à noite e fechei a porta”.

Os começos

    Em várias associações, Rosa encontrava campo vastíssimo para o apostolado.

    D. José Frassinetti, sacerdote culto, de ânimo corajoso e incansável, zelosíssimo vigário de Santa Sabina, fundou em 1856, em sua paróquia, a Pia União das Filhas de Maria, associação destinada as desejosa de viverem no mundo como religiosas, cujo berço havia sido Mornese, em 1855 (não se deve confundir essa Pia União das Filhas de Maria agregada à Primária de Santa Inês, em Roma). O regulamento da nova associação, elaborado por uma jovem de 18 anos, fora corrigido e quase totalmente organizado pelo Padre Frassinetti. Desse regulamento guardavam as agregadas o maior segredo, querendo experimentar-lhe o êxito antes de divulga-lo, a fim de evitar críticas e censuras que nunca faltam às novidades, ainda que sejam boas e santas.

    Nesta Pia União eram mantidas de preferência jovens solteiras, mas aceitavam senhoras viúvas, de boa vontade, resolvidas a conservar a castidade. Rosa com sua amiga, a Marquesa Isabel Lambo-Doria, entraram resolutas nessa associação que se difundiu rapidamente por várias paróquias de Gênova, formando, entretanto, grupos pouco numerosos. O setor do Padre Torpete, presidido pelo próprio D. Frassinetti, era a parte central da Pia União. Rosa freqüentava este centro do qual era presidente sua amiga Isabel Lambo-Doria, tomando parte ativa em todos os trabalhos. Por tal sorte foi apreciada sua operosa habilidade que, em 1864, por desejo do Sr. Arcebispo teve que aceitar a presidência geral da Pia União.

    Além desta Pia União das Filhas de Maria, florescia em Gênova a Pia Associação em honra de Maria Imaculada, pela conservação e incremento da fé católica, fundada em 1851 pelo mesmo D. José Frassinetti. Esta instituição dedicava-se à difusão dos bons livros, ao amparo das crianças periclitantes e mantinha a adoração contínua do SS. Sacramento.
Rosa fazia parte de todas essas obras, exercendo, mal grado seu, o cargo de vice-presidente das crianças desvalidas.

Divulgando uma idéia

   Por seu espírito de altíssima caridade conseguiu atrair outras senhoras genovesas a Pia União das Filhas de Maria e descobriu nelas um espírito de piedade profunda, ávido de se elevar à perfeição e desejoso de trabalhar pela glória de Deus. Concebeu então, a idéia de viver com elas sob a observância de uma regra e comunicou suas aspirações ao seu confessor D. José Firpo o qual, convencido de que sua filha espiritual era objeto de graças extraordinárias, aprovou-lhe o intento.

    D. José Frassinetti, animado com o bem que faziam algumas das Filhas de Maria escolhidas por ele, entre as mais humildes, e preparadas para viverem em comum como Ursulinas, no século, desejou fundar idêntica instituição para senhoras da sociedade, mas fracassou-lhe o plano. Rosa Gattorno, porém, conseguiu realiza-lo. Entretanto, num acordo com suas amigas formou um pequeno, mas possante grupo que era como que o fermento no meio das diversas Pias Uniões. Chamava-se então, Ursulinas, segundo o costume de Gênova para designar senhoras que, sendo quase todas casadas, viviam sob uma regra de vida religiosa no mundo e não se confundiam com as Ursulinas da Companhia de Sta. Ângela de Merici. Formavam uma família religiosa à parte, com reuniões próprias e normas comuns de vida espiritual. Rosa foi escolhida por todas para superiora.

    A autoridade eclesiástica tinha conhecimento dessa instituição e observou a experiência de regulamento por um ano inteiro, ao término do qual o Sr. Arcebispo. Mons. Charvaz, aprovou oficialmente a nascente congregação, elegeu como superiora a Gattorno e confiou a direção espiritual a D. Luiz Botti.

    Transbordando de fervor, Rosa teria desejado que ao menos algumas das Ursulinas se dessem totalmente à associação para o exercício das obras de zelo e se desvencilhassem das obrigações de família o quanto lhes fosse possível; mas as circunstâncias de suas amigas eram um tanto diferentes das suas, e, talvez elas não fossem também animadas da mesma coragem, do mesmo espírito de sacrifício e do cego abandono em Deus, de que era cumulado o coração de Rosa.

    Faz-se mister salientar, que ao aceitar o cargo de Presidente das Filhas de Maria Imaculada, Rosa o fez em obediência a Mons. Charvaz com o qual manteve sempre estreitíssimas relações de amizade, dando-lhe o melhor de seu apoio moral, apesar da situação difícil em que ele se encontrava por causa das diversas opiniões políticas que dividiam as senhoras generosas. Rosa, que na própria família tinha homens de sentimentos muito opostos aos da Igreja, colocou a estima e dedicação a seu bispo acima de todo o interesse ou competição política.

Valor de uma influência

    D. José Frassinetti, acabrunhado pela recusa à aprovação da regra da Pia União, valeu-se dessa aproximação de Rosa, para conseguir de D. Charvaz o que antes lhe havia sido negado.

    Rosa aquiesceu com simplicidade ao pedido e dirigindo-se ao Arcebispo, apresentou-lhe a regra pedindo se dignasse aprova-la. Apenas a eu, Mons. Charvaz disse que a conhecia e não se sentia de aprova-la enquanto nela não fosse cancelado tudo o que lhe desagradava, e deixou transparecer certa dúvida sobre as disposições do Pe. Frassinetti. A Serva de Deus procurou dissipar aquele receio e perguntou, com insistência, quais eram as correções que desejava.

    "Desejo, respondeu o Arcebispo, que a senhora adivinhe o que me desagrada nesta Regra. Vá para casa e volte depois que fizer a correção”.

     Chegada que foi a casa, Rosa se recolheu a seus aposentos e depôs a Regra aos pés do grande Crucifixo. Até altas horas da noite, a Serva de Deus ali esteve mergulhada em profunda oração. Compreendeu, então, que o Arcebispo tinha razão em negar-lhe aprovação e viu, distintamente, quais as partes que deveriam ser renovadas. Agradeceu ao bom Deus e notou as necessárias observações. No dia seguinte, Rosa foi ter com o Padre Frassinetti para saber se ele ficaria satisfeito caso Mons. Charvaz tirasse da Regra o que lhe desagradava, prometendo-lhe que, sob essa condição, a Regra seria aprovada. O santo sacerdote, como era de esperar, respondeu que aceitava com muito prazer qualquer proposta do Sr. Arcebispo. Referiu a Mons. Charvaz a humilde resposta do Padre e apresentou-lhe o livro de Regra com as correções sem, contudo, lhe manifestas como foram feitas.

Quando ele trabalha

    O prelado ficou estupefato, pois eram realmente aquelas as correções que desejava, e concedeu às Regras a suspirada aprovação. No encerramento desse ano cumulado de singulares favores, Rosa obteve de Nosso Senhor a luz para corrigir as Regras das Filhas de Maria e, nesta mesma oração, outro dom preciosíssimo lhe foi comunicado: o primeiro desígnio do Instituto que ela era chamada a fundar. Realmente feita à correção das Regras, enquanto apertava o Crucifixo de encontro ao coração, e desfazia-se em agradecimentos pelas luzes obtidas, sentiu na mente toda pressa da idéia bem nítida de uma outra Regra, na qual se delineava uma nova Congregação Religiosa que se podia instituir. Secundando a inspiração do momento, escreveu as idéias que lhe subiam à mente, dobrou o papel, colocou-o em lugar seguro e continuou a oração sem pensar no que fizera.

    Não fez palavra com pessoa alguma sobre o que ouvira e escrevera na segunda parte daquela prece.

    Recorrendo, novamente, ao Salvador pela oração, foi-lhe concedido um favor mais belo ainda e inesperado: a vocação àquela vida nova que deveria arrancá-la do mundo e fazê-la uma grande Serva de Deus. Quanto mais ardente era a oração, mais intenso era também o desejo que sentia de mostrar ao Arcebispo quanto havia escrito naquela noite.

Luta entre a natureza e a graça

    Os primeiros momentos de uma vocação são realmente inefáveis: quem poderá descrever as trepidações que agitam a alma e acompanham nestes arroubos divinos? A surpresa de um tesouro encontrado é nada em comparação com o dom inefável com que ao bom Deus Apraz enriquecer uma alma.

    Mas a pobre natureza humana, algumas vezes, se habitua por tal forma à doce quietude, que chega a ponto de sentir desgosto diante de uma novidade sublime: dá-se então, a luta entre a natureza e a graça.

    É que a realização da obra estava exigir completo abandono da família e dos filhos, para atirar-se uma empresa assas difícil, e Rosa sentiu repugnância em obedecer.

    O pensamento dos filhos e dos pais, em avançada idade, aos quais estava ligada por terníssimo afeto, fez-lhe subir os soluços à garganta e teve a impressão que ia morrer. “Ó, meu Deus, sinto que minhas forças não bastam para fazer o que me pedia; sinto-me desfalecer só em pensá-lo... Não tenho coragem, não posso”.

   Rosa compreendeu bem neste momento, a sua nulidade; por isso até o fim da sua vida, costumava designar o Instituto por ela fundado por ela fundado com o único nome de “Ópera di Dio”.

    Resolveu, finalmente, abrir-se com o confessor que a repreendeu por ter silenciado por tanto tempo e obrigou-se a relatar a Mons. Charvaz o segredo que lhe confiara. Desolada e confusa Rosa se apresentou ao bondoso Arcebispo, depois de lhe haver relatado, por escrito, o assunto que a levava a procura-lo.

    Mons. Charvaz ouviu-a com atenção e disse-lhe que executasse quanto o Senhor lhe ordenara e que a obra seria belíssima. Somente havia necessidade de elaborar um regulamento interno decalcado sobre as normas da Regra apresentada anteriormente.

    Alguns dias após esta audiência, Rosa foi chamada à presença do Arcebispo que lhe disse haver encarregado Mons. Magnasco, membro do Capítulo Metropolitano, de ajuda-la na elaboração do regulamento desejado. Rosa, entretanto com muita humildade, preferiu confia-lo inteiramente ao Mons. Magnasco.

    Alguns dias após esta audiência, Rosa foi chamada à presença do Arcebispo que lhe disse haver encarregado Mons. Magnasco, membro do Capítulo Metropolitano, de ajuda-la na elaboração do regulamento desejado. Rosa, entretanto com muita humildade, preferiu confia-lo inteiramente ao Mons. Magnasco.

    Isto feito foi o regulamento elaborado, totalmente, por Mons. Magnasco e entregue ao Sr. Arcebispo. Entretanto, dilatado tempo se passou sem que Mons. Charvaz se pronunciasse. Mas à Serva de Deus nenhuma estranheza causava este fato, pois adivinhava perfeitamente, o porque da dificuldade.

     Interrogada pelo Sr. Arcebispo sobre o regulamento, Rosa externou seu desgosto. “Também a mim ele não agrada”, afirmou Mons. Charvaz, e disse Rosa que era necessário fazer-lhe muitas correções, pelo que lhe pediu que o refizesse na íntegra.

    A Serva de Deus, receosa de que essa empresa não passasse de insinuação diabólica e, sobretudo, angustiadíssima pelo pensamento de ter de abandonar os filhos, pediu ao Sr. Arcebispo que lhe permitisse consultar o Santo Padre antes de iniciar o trabalho, Rosa se atreveu a tanto, como a secundar um último e desesperado apelo de seu coração materno, na esperança de fugir à penosa incumbência. Era a fragilidade da pobre natureza que se fazia sentir! O Santo Padre pensava Rosa, não permitirá a uma mãe abandonar seus filhos.

Aos pés do Santo Padre

    Assim, aos 3 de janeiro de 1866, numa quarta-feira, às 17 horas, Rosa, recebida em audiência particular, sumamente comovida, prostrou-se aos pés do Vigário de Jesus Cristo, ao qual já havia sido apresentada, oportunamente, a Regra escrita diante do Crucifixo.

    Pio IX abençoou-a paternalmente e, tomando-lhe as mãos, disse-lhe que a Regra lhe agradara muitíssimo e que não queria que se deferisse a sua execução.

    Rosa fulminada com a inesperada sentença saiu novamente de joelhos e, num pranto convulso, lembrou ao Santo Padre que tinha os pais idosos e dois filhos pequenos necessitados dos desvelos maternais.

    “Não importa, não importa, respondeu Pio IX Deus assim o quer”.

    “Mas, Santidade, acrescentou Rosa, Deus me pedirá contas de meus filhos, segundo o Evangelho, e eu os amo muitíssimo, não posso deixa-los; é impossível”.

    O pranto truncou-lhe as palavras na garganta e não pôde prosseguir.

    “Pois bem, respondeu o Santo Padre, em tom severo, se não fizerdes o que Deus vos ordena, sentireis remorsos durante toda a vida e nunca mais tereis paz”.

    Estas palavras graves do Soberano Pontífice despertaram na Serva de Deus a consideração do dever à visão dos direitos supremos do Criador sobre as criaturas e, nas chagas do Divino Crucificado pela salvação do mundo, sentiu ecoarem as palavras do Santo Padre, como que a ameaçá-la de um terrível castigo pela recusa obstinada que não poderia ter mais nenhuma justificativa. Então, com o coração despedaçado, Rosa inclinou a cabeça e disse: “Santidade, quero fazer a vontade de Deus”.

Frutos de um Fiat sublime

    E desse Fiat nasceu o novo Instituto que, mais tarde, tomou o nome de “Filhas de Sant’Ana”.

    Pio IX, como que inspirado, acrescentou: “Teu Instituto, Rosa, se ampliará rapidamente como o vôo da pomba, por todas as partes do mundo, Deus cuidará de teus filhos. Pensa só em Deus e na sua obra”.

    Com relação ao nome do Instituto – Filhas de Maria Imaculada – escrito na Regra, o Santo Padre inquiriu se fora inspirado por Deus, ao que Rosa respondeu negativamente. “Bem, disse o Santo Padre, por enquanto fica assim, mas quando tiverdes obtido o verdadeiro título, se Deus quiser que seja outro, substituir-se-á pelo que o senhor designar”.

    A Serva de Deus, com as mãos presas entre as do Santo Padre que as apertava paternalmente, só sabia dizer: “Sim, Santidade, saberei obedecer”.

    Foi necessário esse holocausto do coração materno, a fim de que nela outro coração se formasse pela graça.

    Por inspiração divina, Rosa escolheu Piacenza para berço da fundação.

    Aos 12 de março de 1866, após violenta e dramática luta para vencer o afeito filiar, sustentada pela graça, Rosa transpôs o corpo de sua mãe, que se deitara à porta da saída no intuito de embargar-lhe os passos, abandonou a casa paterna e seus queridos filhinhos para ir cumprir a Vontade de Deus.

    Em Piacenza, a Serva de Deus travou relações com um sacerdote notável da Congregação das Missões, que muito a auxiliou na organização do Instituto.

    Neste ano memorável de 1866, em fins de outubro o novembro, Rosa teve uma visão que a fez compreender como deveriam chamar-se e vestir-se as novas religiosas. Após longas horas passadas em fervorosas orações sentiu-se tomada de uma espécie de êxtase. Subitamente viu a capela iluminada por uma luz misteriosa e lhe apareceu Maria Santíssima com Sant’Ana num ato de lhe mostrar o véu que deviam usar as futuras religiosas; mais em baixo, como se estivesse ajoelhada, via São Francisco de Assis. A Virgem Imaculada lhe disse: “Quero que o título da Regra seja Filha de Sant’Ana. Cedo com grande satisfação à minha Mãe esta Obra. Não se aflija; sempre terei como feito a mim o que lhe fizeram”. E a visão desapareceu.

    Assim, o dia 8 de dezembro de 1866, festa da Imaculada, abria para o Instituto uma história fecunda em santidade e obras de benemerência. Realizou-se nesta data, na capelinha da Madre, a cerimônia da primeira vestição de cinco religiosas. Graves motivos da família e o próprio bem do Instituto não permitiram a Rosa a felicidade de ser contada neste número. Somente na festa de Sant’Ana do ano seguinte é que a Serva de Deus recebeu o santo hábito.

Síntese de uma espiritualidade

    Na casa do Senhor, Rosa Gattorno era uma lâmpada resplandecente a indicar a todos o caminho da virtude. Sofreu muito, mas sofreu como santa. Foi violentada pelo demônio, perseguida pelos maçons, caluniada por suas próprias filhas e... Transbordou o cálice no travo amargo do desprezo dos bons e na incompreensão por parte de seus superiores.

    Todas essas provações ela suportou com coragem heróica, abraçada à cruz, envolvendo seus adversários no manto de sua insuperável caridade; vendo sempre e só o seu Jesus por trás de todas as contradições. Nunca temeu dificuldades porque todos os problemas ela os resolvia com muita fé aos pés de seu Crucifixo. “Rezai e tudo obtereis”, dizia as suas filhas. Assim, nos primórdios da fundação do Instituto, graças a suas preces, nunca faltaram às religiosas, na hora oportuna, o necessário alimento e meios para saldar dívidas urgentes. Até a saúde, para mais de uma de suas filhas, conseguiu alcançar de Deus a uma simples bênção acompanhada de ordem enérgica de se levantar. Em virtude de dom da bilocação, com que foi agraciada, pôde sustar muitos males e salvar suas filhas perdidas nas selvas da Bolívia.

    Rosa amou com apaixonada loucura seu Esposo Crucificado e neste amor operativo estava a explicação daquele fascínio sobrenatural que exercia em tornou de si.

    Infelizmente não é possível enquadrar dentro de ligeiros traços biográficos, uma vida rica de operosidade, resplendente de milagres, repleta de assombros de caridade e votada, totalmente, ao amor de seu Deus, pelo sacrifício.

Aprovação das Regras

    Em 1868, a Serva de Deus foi confortada com a aprovação Diocesana das Regras do nascente Instituto. Na festividade de Sant’Ana do ano de 1892, uma grande consolação reservou Deus ao coração da Serva fiel, presenteando-a, nessa data, com a definitiva aprovação das Constituições pela Cúria Romana, que lhe foi apresentada pelo Cardeal Verga, Protetor do Instituto.

    Vendo naquelas Regras a verdadeira vida, Madre Rosa se ofereceu a Deus como vítima, a fim de que a plenitude dessa vida existisse em todas as suas filhas.

O << Vôo da Pomba>>

    A obra tinha surgido a menos de um ano quando explode na Itália uma terrível epidemia de cólera, que se alastra até Piacenza e seus arredores provocando, em dois meses, centenas de mortes. As filhas de Sant’Ana prontificam-se se prodigalizar na Assistência os antigos pelo mal, sem medo do perigo de contágio do qual, porém, todas ficam imunizadas atribuindo-se a causa a uma particular proteção de Sant´Ana. Cessada a epidemia, Rosa acolhe na sua casa dezenas de crianças que ficaram órfãs e funda o primeiro orfanato. Não se limita à assistência material moral da órfãs, mas, ainda que na extrema limitação de meios, providencia-lhes instrução e preparação profissional.

    Em seguida, abre em Piacenza um escola Elementar gratuita para as crianças pobres. No entanto o hospital de Cento já oferece às filhas de Sant’ Ana o primeiro campo onde desenvolverem a sua missão fora dos confins de Piacenza. E em Sampiedarena o Sacerdote Ângelo Ricchini, querendo deixar o seu patrimônio a uma obra de beneficência, confia à Madre Rosa a fundação de um orfanato. A Condessa Trotti de Bolonha põe à disposição de Rosa o prédio Obizzi de ferrara; de sua propriedade para um orfanato, ao qual as Irmãs anexam um Pensionato e uma escola para enfermeiras.

    São numerosos os pedidos que chegam de Bispos e Administradores de Obras pias, que querem nas suas sedes uma comunidade de Filhas de Sant’Ana. E a fundadora logo que pode, aceita. Nenhuma forma de miséria material ou moral a deixa insensível: assistência aos enfermos nos hospitais, a domicílio, ou nos manicômios; asilos para anciãos; Institutos de assistência, educação e instrução para órfãos e crianças pobres. O instituto progride com admirável rapidez tanto no número quanto nas obras. Em janeiro de 1872 Madre Rosa encontra-se em Nizza Monferrato para assumir a assistência aos enfermos no hospital local; e desde o ano de 1873 ao ano de 1878 a presença das filhas de Sant’Ana se estende até a Itália Meridional e na Sicília com uma média de seis novas casas pôr ano.

    E não só na Itália: em 1878, com apenas 12 anos de fundação do Instituto, 16 filhas de Sant’Ana, partem da Itália para fundar, após longa viagem, cheia de aventuras, duas casas em La Paz, na Bolívia, logo seguidas pôr outras na Bolívia e depois no Brasil, Chile, Peru e África.

Expansão das Obras

   Rapidamente se desenvolveu o Instituto na Itália, o que atraiu a atenção de quantos se dedicavam às obras de caridade em terras de missões.

    Em abril de 1871 o Instituto contava seis casas e cento e onze religiosas. Em princípio de 1873, no curto espaço de 3 meses, o Instituto aceitou seis novas fundações: um hospital, 4 colégios e uma casa para domésticas.

    Em Piacenza, Rosa fundou também um Instituto de Religiosas Sacramentinas.

    Por tal forma progredia o Instituto na Itália que, do estrangeiro, chegavam pedidos insistentes no intuito de conseguirem a cooperação das Religiosas Filhas de Sant’Ana nos diversos setores do apostolado que já vinham exercendo, com tanta eficiência na eficiência na Itália. Aqui, no Brasil, as Filhas de Sant’Ana chegaram em 1884, no Estado do Pará, tendo como primeiro campo de apostolado o Hospital do Bom Jesus, hoje Santa casa de Misericórdia.

    Em 1888, a Madre enviou as primeiras religiosas para as Missões da África que tomaram grande incremento e foram de intensa consolação para o seu coração de apóstolo.

    Aos 25 de novembro de 1878, partia para a Bolívia a primeira equipe de 16 Religiosas idealistas, levando ao Novo Mundo um espírito forte e humilde, rico de amor e confiança em Deus de que se faz mister para o feliz êxito das grandes empresas. “Lãs abnegadas madrecitas de la caridad” , como as chamavam os bolivianos, foram recebidas em La Paz como anjos enviados do Céu.

    Êmulas de sua santa Fundadora, as Filhas de Sant’Ana nas terras estrangeiras que as acolheram com tanto carinho, desdobraram-se em esforços e sem regatear sacrifícios, entregaram-se a suas obras de apostolado. E, confortadas com a proteção de Deus que nunca falta aos que trabalham com espírito sobrenatural, tiveram a consolação de ver o seu Instituto gozar de alto prestígio no Chile, Peru e Bolívia, sobretudo neste país que ostenta, entre vários educandários, o Colégio das Filhas de Sant’Ana, com destacado renome.

A Madre

   A Madre não conhece descanso. Quase sempre doente marcada no seu corpo pelas ásperas penitências voluntárias, obstaculada por mil dificuldades e alvejada pôr criticas e calúnias, não se acovarda.

   Se bem que cada viagem lhe cause penosos distúrbios, está sempre em movimento para a fundação de novas obras, ou para visitar as casas já fundadas, enquanto com a válida ajuda do Pe. Tornatore não descuida a formação espiritual das Irmãs, especialmente das noviças e daquelas mais jovens, às quais quer comunicar aquele espírito de maternidade que, pela <<presença>> carismática de Sant’Ana é a característica fundamental de todo o Instituto, mas que nela é também expressão de oblatividade inata e amadurecida pela dolorosa experiência.

   Experiência de maternidade que não podia ser completamente cortada com os filhos da sua carne e que até à morte foi-lhe a causa de dores e humilhações que oferecia ao Senhor pela salvação eterna daquelas criaturas que teve que abandonar ainda crianças.

   <<Só o meu Deus – escreverá nas suas memórias – soube que me custaram e o quanto eu sofri. Quantas vezes me veio a tentação de abandonar tudo e voltar para eles! Mas, sempre repetia comigo mesmo as palavras que o Santo Padre me disse... Era terrível aquela tentação, mas o pensamento de agir contra a vontade de Deus, fazia-me resistir a qualquer martírio...>>

   A amarga realidade justifica plenamente estes desabafos dolorosos. Alessandro depois de uma infância piedosa e inocente, arrastado pêlos maus exemplos, como ele mesmo confessará à mãe perto de morrer, viveu uma juventude transviada e acabou contraindo um matrimônio baseado na mentira (para conseguir a licença da mãe, disse que era seu, um filho que a mulher tinha tido de outro) que a feriu profundamente e lhe ocasionou delicados e penosos problemas pôr parte dessa indigna nora.

    Somente no ano de 1891, com o coração despedaço, mas, finalmente tranqüilizado, Madre Rosa, poderá confiar o filho à misericórdia de Deus com o qual o tinha reconciliado a preço de incessantes e penosas orações e duras penitências.

    Carlota por causa de sua deficiência, jamais pôde ser completamente abandonada pela mãe a qual procurou tê-la perto de si, nos limites dos seus compromissos de Fundadora e Madre Geral.

    Cresceu boa e piedosa, mas, de índole passional e de muita vivacidade; mesmo depois de seu casamento com o Conde Gaspare Barbiellini Amidei, sua mãe sentiu a necessidade de velar pôr ela e pêlos seus netinhos. Isto lhe causou não poucos sofrimentos, mas, foi uma oportunidade para demonstrar a sua têmpera forte e o seu sólido equilíbrio moral, enquanto, embora atenta ao bem da filha, jamais chegou a pactos no que dizia respeito aos interesses do Instituto.

   Em cada circunstância Madre Rosa demonstrou sua rica personalidade caracterizada pôr um perfeito equilíbrio entre uma rara sensibilidade humana espiritualidade elevada às alturas da contemplação mística. A sua humanidade se manifesta na plena compreensão e concreta partilha das dores alheias e na carga de afeto maternal que derrama sobre as Irmãs, enquanto se forma e guia à prática da vida Religiosa e ao exercício das obras de caridade.

   Firme e irremovível sobre os princípios, mas sempre propensa à compreensão e ao perdão; ternamente solícita pela saúde das Irmãs e igualmente preocupada com o bem estar físico e moral dos assistidos quer que cada comunidade possa refletir o espírito da <<família de Sant’Ana>>; o amor fraterno deve ser o emblema. Cada uma, numa atitude de doação materna deve ajudar os irmãos, especialmente os pequenos, os pobres, os sofredores, a crer no amor do Pai celeste, reavivando a fé também na bondade da vida terrena.

  Severíssima consigo mesma, mas, muito terna com os outros mesmo tomada de graves preocupações e de agudas dores morais, assim como pôr freqüentes dificuldades econômicas se mostra sempre calma e tranqüila gosta muito de brincar e quer ver as Irmãs alegres como quem se sente absolutamente segura pelo fato de Ter confiado a Deus a própria vida.

Fé, Esperança e Caridade em grau heróico

    Rosa gattorno sempre e nas mais difíceis circunstância de sua vida soube abandona-se nas mãos de Deus com assombrosa confiança; depois de religiosa, porém, mais se acentuou nela esse espírito de fé que chegou como que a fundir seu coração no coração da Igreja e criou nele um clima de supraterrena felicidade. Ela própria confessava ter recebido de Deus o dom de uma fé profunda.

    As conferências que faziam as religiosas eram por tal forma saturadas do espírito de fé, que não havia quem as ouvindo não se sentisse às alturas das santas audácias.

    O seguinte fato prodigioso imprimiu um caráter distinto em sua espiritualidade: Quando viúva, residente ainda com seus pais, Rosa passava longas horas da noite diante de um grande Crucifixo. Certa vez, em momento de profunda angústia, o Cristo desprendeu-se da cruz e caiu em seus braços. Atribuindo o fato a uma casualidade, fixou-o novamente à cruz e prosseguiu em suas orações. Nas noites seguintes, repetiu-se o mesmo incidente, apesar de ter sido o Cristo fixado à cruz por hábil operário. Rosa compreendendo, então, o sinal misterioso, comoveu-se profundamente. Era, portanto, desejo do Mestre que sua fiel discípula fosse toda dele por uma completa imolação. Desde esta noite memorável, a fé tornou-se mais refulgente ainda em Rosa Gattorno, fazendo-a medir os grandes e pequenos acontecimentos com o Sangue e as Chagas do Crucificado.

   Tornou-se, então, proverbial entre as Filhas de Sant’Ana, o estilo da Madre Gattorno, que terminava todas as cartas com os seguintes dizeres: “Abraço-a no meu caro Crucifixo”.

    Deus premiou a ilimitada confiança de sua Serva concedendo-lhe dons extraordinários. Provocava grande admiração a quantos a conheciam, sua inalterável serenidade em meio às maiores dificuldades. Sua preocupação máxima era ser toda de Deus e conquistar-lhe almas; tudo o mais, com esperança assombrosa, ela tinha como certo: o Céu não lhe negaria. E, a sustentar tão elevado edifício, aprofundaram-se bem sólidos, os alicerces da humildade.

    Quando Deus se apodera totalmente de uma alma, nela desaparece por completo toda mesquinha pretensão, todo ressaibo de egoísmo, para perder-se sempre numa doação recíproca e transbordante de amor. E, neste fluxo de um contínuo dar e receber, fica a pobre alma enriquecida de celestes dons para extravasa-los em benefício de outrem.

    A vida de Rosa Gattorno foi, toda ela, um poema heróico de caridade. As religiosas que tiveram a felicidade de conviver com ela são unânimes sem afirmar que sua presença era um forte estímulo à virtude e encorajamento aos mais árduos sacrifícios. Quantas almas, subjugadas pelo poder de suas palavras, abandonaram tudo e se entregaram às austeridades da vida claustral! Entre estas, destaca-se a Duquesa Maria Teresa Patto de Sorrentino, figura de grande destaque social em Palermo, que, toda absorvida como vivia nas superfluidades mundanas, abandonou todos os requintes da vaidade e conforto para se consagrar a Deus na vida de humilde Filha de Sant’Ana.

Uma lâmpada que se extingue

    Há momentos na vida de uma Congregação que se descrevem! É o momento em que o bom Deus retira de uma obra o imprescindível esteio. Uma simples gripe com o agravante de uma deficiência cardíaca foi o prenúncio, a explicação, que não explicava a tantos corações amargurados, a razão de ser dos trâmites normais de um desaparecimento esmagador.

    Rosa Gattorno já havia preparado suas filhas para a luta. Com suas palavras de fogo e, sobretudo, com seu exemplo mais eloqüente ainda, nelas despertara o entusiasmo por uma realidade que é realmente fonte de santidade: o apostolado exercido com elevação do espírito e orientado sempre pela observância das Santas Regras.

   Esquecidas de seus males dedicou os últimos meses que a providência lhe concedeu, robustecendo na fé o espírito de suas filhas e dispondo tudo com tal segurança que, como ela própria afirmou, após sua morte, o Instituto veio a fluir uma era de paz e grande tranqüilidade.

    Com a serenidade dos santos, sem uma palavra de lamento, suportou, ou melhor, saboreou os sofrimentos finais. Assim, aos 06 de maio de 1900, Rosa Gattorno serenamente se partiu para receber o justo galardão de glória, que o céu prepara aos seus fiéis servos, enquanto que, na amplidão da Casa Geral, as Religiosas estarrecidas ante o irremediável de uma esmagadora realidade, lamentavam o desaparecimento da inesquecível Madre.

A Mística

   Por causa de sua profunda humildade, muito atenta a manter para si os <<segredos do Rei>>, somente depois de sua morte se pôde conhecer a riqueza e a intensidade de sua vida íntima, através da leitura das suas <<Memórias>> escritas pôr obediência ao confessor.

   Nelas sobressai a sua vontade de total identificação com o Cristo crucificado pela qual, no segredo do seu quarto, especialmente o de Piacenza, onde jamais permitiu a entrada de alguém, passava parte da noite em oração e penitência, e era bem recompensada pelo seu <<Bem>> com extraordinárias manifestações místicas das quais não falava nem mesmo às suas mais fiéis colaboradoras.

    <<O ano de 1858, livre de todo e qualquer vínculo, dediquei-me com mais fervor às obras pias, e a freqüentar os hospitais e os pobres enfermos a domicilio, socorrendo-os...

   Todos os afetos terrenos iam-se dissipando, nada mais me interessava, só o meu Deus era o alimento de todas as minhas delícias...>>

   <<...Em 1859 fiz voto de obediência e castidade só pôr um ano. Neste mesmo tempo recebi o cordão de São Francisco de Assis>>.

   <<...Em 1861 vesti o hábito franciscano, como os frades, da mesma fazenda, com um cordão grosso e a <<caveira>> de um lado; vestia-o dia e noite...>>

    <<... Agora novas coisas me presenteia o meu amor... Durante os êxtases recebo uma força de mente que me faz distinguir bem, tudo o que é de Deus e me deixa uma liberdade de ação que pareço a primeira cabeça capaz de fazer tudo (enquanto sou) a mais ignorante de todas as criaturas que vivem sobre a terra>>.

    <<... No meio de tanto tumulto de afazeres nunca me sinto privada da união com o meu Deus, antes, já faz algum tempo... Que sempre o vejo ao meu lado>>.

    <<Amor eterno, vida de minha vida, meu ser! Quem pode descrever a doçura que me fazes provar? Talvez um Serafim com a sua pena, poderia expressar algo do teu amor, porém, nunca poderia chegar a descrevê-lo na sua essência...>>

Exumação

    Secundando um justo desejo de suas filhas a Madre Geral, Sóror Ana Corredentrice Ponarici, 1932, obteve da autoridade Eclesiástica permissão para guardar na capela da Casa Geral os queridos despojos da Venerável Fundadora.

    Presentes os membros do Tribunal Eclesiástico do Vicariato de Roma, vários prelados, um número incontável de Religiosas tendo à frente a Madre Geral, o Conde Bernardo Barbielline Amidei, neto mais novo da Serva de Deus, dois médicos, um pr encargo do Vicariato e outro, pela Higiene, aos 02 de fevereiro de 1932 procedeu-se à exumação do cadáver.

    Apenas aberto o caixão, o médico da Higiene deu ordem para que fosse novamente fechado por lhe parecer que o corpo se encontrava ainda, em estado de decomposição, pelo afloramento do mofo sobre um amontoado de panos em putrefação. Mais prudente, porém, o médico dos encargos eclesiásticos insistiu para que se procedesse a um ligeiro reconhecimento. Suspensos que foram os panos da parte da cabeça, apareceu entre vivíssima emoção dos presentes, o rosto da Serva de Deus. Levantados os outros panos verificaram que todo o corpo estava incorruto. Em transportes de júbilo e intensa comoção, as Filhas de Sant’Ana, no dia 14 de junho, com carinho todo filial, receberam na capela da Casa Geral, em Roma, o corpo de sua Fundadora.

    Venerada com religioso afeto, Rosa Gattorno voltou à sua sede de comando, para conforto e orientação de suas filhas.

E hoje!

    Hoje a Congregação além de muitas obras na terra de sua origem – Itália- exerce missão apostólica na Bolívia, Argentina, Chile, Peru, Eritréia (África), Palestina e Brasil, onde está dividido em três Províncias.

  • Província Santo Apóstolos Pedro e Paulo – do Amazonas ao Ceará contando 17 casas.

  • Província Madre Rosa Gattorno – do Rio Grande do Norte a Bahia com 15 casas.

  • Província Nossa Senhora Aparecida – do Rio de Janeiro a São Paulo com 12 casas.

  • Total de casas no Brasil: 44.

    Verifica-se, deste modo, a memorável profecia do Santo Padre Pio IX: “Teu instituto, ó Rosa, se ampliará rapidamente como o vôo da pomba, por todas as partes do mundo”.

A Herança da madre Rosa

    << Meu Deus, dai-me cem braços para poder consumá-los todos pôr vós!...

    << Meu Bem, como posso fazer para que todo o mundo te conheça? Oh! Quantos existem que não Te conhecem!...

    << Meu Bem, como desejaria fazer-te conhecido, como converter tantas almas que não crêem! Se eu tivesse mil vidas, mil vidas Te daria até consumi-las gota a gota...>>

    Compenetradas pelo ardor da Madre, as filhas, estendendo o vôo missionário, ultrapassaram os confins atingidos durante a sua vida.

    Presentes, durante na vida de Madre Rosa, em:

  • Bolívia desde 1878

  • Brasil “•1884”.

  • Chile “•1885”.

  • Eritréia “•1886”.

  • Peru “•1887”.

  • França “•1891”.

  • Espanha “•1896”.

     E depois de sua morte, em

  • Argentina desde 1913

  • Israel “ 1925

  • Etiópia “ 1968

  • Angola “ 1986

  • México “ 1987

  • Austrália “1988”.

  • Kênia “1990”.

  • Índia “1990”.

  • Filipinas “1992”.

    Atenta a todas as necessidades do homem realizou e abriu o caminho para a realização de múltiplas obras

    No campo da enfermagem:

  • Visitas e tratamento de doentes a domicílio

  • Hospitais

  • Hospitais psiquiátricos

  • Casas de tratamento para deficientes psicofísicos

    No campo assistencial:

  • orfanatos

  • creches

  • Institutos educativo-assistenciais

  • Asilos para anciãos

  • Serviço junto às comunidades terapêuticas

  • Assistência aos encarcerados

    No campo educativo:

  • Escolas maternais, escolas de 1º e 2º graus.

  • Pensionatos universitários

    No campo profissional:

  • Escola de tecelagem corte e costura; bordado, cerâmico e música.

    No campo pastoral:

  • Atividades paroquiais

  • Assistência às famílias carentes e, em geral aos pobres e aos marginalizados.

    A voz profética de Madre Rosa continua a exortar as Filas para que a seu exemplo, colhendo os desafios do mundo atual e o seu mandato da Igreja, procurem estar presentes lá onde o grito dos pobres é hoje mais forte:

    <<Filha de Sant’Ana, toma a tua cruz, inclina a cabeça e vai ao trabalho... A terra é vasta e o campo imenso... Olha o que tens a fazer e jamais o que já foi feito...

    Péssima coisa é acreditar Ter feito alguma coisa>>.

    E assim seja.